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O Segredo De Davi: Entrevista com o diretor de fotografia Kauê Zilli

Entrevista realizada para o site da ABC (Associação Brasileira de Cinematografia).

Por Danielle de Noronha



O Segredo de Davi, estreia de Diego Freitas na direção de um longa-metragem, conta a história de um tímido estudante de cinema que possui um passado sombrio. Ao visitar sua vizinha Maria, um instinto esquecido vem à tona e ele comete o seu primeiro assassinato. No dia seguinte, ela reaparece no apartamento do garoto e passa a influenciá-lo a seguir numa jornada de crimes que revelarão sua verdadeira natureza: a de um serial killer.

Entrevistamos o diretor de fotografia Kauê Zilli, que nos conta sobre o trabalho no filme.



Quais foram suas primeiras impressões ao ler o roteiro de O Segredo de Davi e quais os principais desafios de um projeto do gênero terror/suspense no país?

Lembro de ter recebido uma ligação do diretor Diego Freitas durante a Semana ABC do ano passado, eu tinha sido indicado por amigos diretores e ele queria falar sobre um longa-metragem que iria produzir dentro de um mês. Sentamos em um café perto da casa dele e ele me bombardeou de referências do que gostava e imaginava para o filme, tivemos uma afinidade instantânea. Mas teríamos um grande desafio, um orçamento bem baixo (1.5 mi) com expectativas bem altas. Ele me mandou o roteiro em seguida e li em uma sentada, me prendeu do começo ao fim. O suspense já funcionava no texto e me divertia com a história, as imagens vinham fácil e terminei querendo fazer o filme. Sou fã de terror/suspense e do uso que estes gêneros exigem da linguagem cinematográfica, o que acaba me seduzindo para projetos nesse perfil. E acredito que o cinema brasileiro só tem a ganhar com a diversidade, essa em todos os sentidos!



Quais câmeras e lentes foram utilizadas e por quê elas foram escolhidas? Foram realizados testes prévios?

Quando entrei no projeto a produção já tinha negociado o pacote principal de câmera e lentes, uma Alexa Mini (que naturalmente sou fã) com um jogo de Cooke Mini/S4. E o Diego já queria contar as imagens do passado com lentes anamórficas. Depois de ler o roteiro e começar a conhecer algumas locações, levantei um teste para ajustar a lista final. Devido ao orçamento apertado, restringi itens testados ao que cabia nele. Testei alguns filtros de difusão (Glimmerglass, Black Difusion e Black Promist), as Cooke Mini/ S4, as Zeiss Superspeed (sabia que precisaria de lentes mais claras em certas situações) e algumas anamórficas (Kowa e Arri Scope). Eu imaginava uma textura na imagem que levasse para um outro mundo e, analisando os testes com o Diego, optamos pelo Black Promist 1/4 (de forma geral, reduzindo a intensidade dependendo do fundo) para ajudar a criar esse efeito.

Além disso, outras perguntas que fizemos para os testes foram como flares difusos e pontuais se comportavam com essas lentes e suas variações de diafragma, a natureza de bokeh delas e os limites para uma definição aceitável. Tínhamos o desejo de ficar em um lugar em que a textura fosse presente, mas ao mesmo tempo difusa, para criar esse mundo fantástico. Entre as anamórficas optamos pelas Kowa por gostarmos mais do seu look e facilidade de tamanho para a operação. Foi necessário trabalhar com filtros close-up com elas por conta de um foco mínimo distante. Tivemos como locadoras a BCR e a Marc Films, gostaria de agradecer a parceria e a disponibilidade durante o projeto, em especial a Ayme Segatti por toda a atenção. E claro, não podia deixar de agradecer a equipe de câmera querida! Edu Yamanaka (1º AC), Cesar Ishikawa (2ºAC), Carina Barros (Video Assist), Felipe Albanit (Logger e modelo do teste) e Leticia Modena (estagiária).



Onde buscou inspiração para esse filme, especialmente para as cenas de maior tensão?

Duas das principais referências, em especial para a cinematografia, foram o trabalho de câmera do Matthew Libatique no filme “Cisne Negro”, acompanhando sempre de perto a protagonista e a forma como cria tensão, e a obra do fotógrafo Gregory Crewdson, que com seus desenhos de luz e enquadramentos transmite uma sensação de solidão, artificial e fantástico.


Cena do filme "Cisne Negro"
Family Dinner, de Gregory Crewdson

Durante os ensaios, nas leituras de roteiro, na decupagem e conversas de referências, fomos desenvolvendo como o filme seria tratado e como criar esse ritmo e tensão. Tivemos um encontro muito legal entre todos os departamentos. A principal inspiração vem dessas trocas!


Como foram realizadas as cenas dos assassinatos? Quais os desafios e soluções encontrados?

Tivemos duas cenas principais de assassinato durante o filme. A primeira é menos física e mais psicológica, o desafio dela foi mais no desenvolvimento do clima da cena para desencadear na morte. Construímos uma decupagem com movimentos lentos de travelling, elevando essa tensão. A segunda morte parte de um conflito mais físico, uma luta entre dois personagens que termina em um assassinato que teve como referência direta uma cena do filme “Irreversível”. Tivemos como parceiro para desenvolver a luta dessa cena e de uma outra mais para frente o Dani Hu, que foi imprescindível para ajudar a trazer realismo para as cenas. Rodamos ela em câmera na mão, acompanhando os personagens, seus golpes e isso ajudou bastante a dar dinâmica para a ação.



A segunda parte desse assassinato traz uma cena de efeito especial criada pelo Fabrício Rabachim, que esteve presente em praticamente todos os dias no set, parceiro de longa data do Diego e muito talentoso. Ele escaneou a cabeça do ator Eucir de Souza e recriou em CGI para poder esmagar no filme (para entender um pouco melhor, assista esse clipe com os bastidores do filme). Essa segunda morte foi o nosso último dia de set, uma noturna bem apertada de cronograma, com luta, efeitos práticos de maquiagem, fogo e de pós, e ainda choveu para facilitar a vida. Posso dizer que fizemos milagre com o tempo que tínhamos e isso graças ao esforço de cada um envolvido. Tivemos como parceira para maquiagem de efeitos a Denise Borro e efeitos práticos o Martão, que foram incríveis também. Os principais desafios foram solucionados nessas uniões colaborativas para criarmos a imersão que o filme pede. Na verdade existe um outro assassinato, mas esse é surpresa para quem assistir o filme!


E como foi trabalhada a luz no filme?


O filme trata de um protagonista que depois de cometer assassinatos revê os mortos de forma idealizada. Ele é um garoto do interior, estudante de cinema e que acaba vendo o mundo sob esse imaginário. Tanto eu como o Diego conseguimos nos relacionar com isso, ele cresceu em Mariporã e eu em Blumenau, ambos viemos para São Paulo para estudar cinema e tivemos o começo da nossa educação cinematográfica construída pelo cinema hollywoodiano, que domina as salas de cinema e as sessões da tarde do interior do Brasil. Desde o começo quisemos criar um mundo estilizado e fantástico que flertasse com essas nossa referências. Tratamos quase como um filme de super herói, mas com uma virada mais dark. Busquei criar uma atmosfera de luz sombria, mas ao mesmo tempo colorida, com contrastes tanto de cor como de luz altos, mas com uma natureza mais difusa.

A luz é motivada pelo psicológico do personagem e as cores simbolizam seus estados. Kinoflos, caixas HO, “Chimeras” e panos de difusão foram constantemente usados, sempre que possível com colmeias para controle de direção e contraste, garantindo essa textura de luz. Sempre que necessário, usava um pano preto para “negativar”, limpando as sombras e mantendo o contraste do ataque. Para as luzes de vapor de sódio usei um Full CTS nos fresnéis tungstênio (dica que aprendi com o Junior Malta) e para várias das luzes frias usei gelatina cyan nas kinoflos daylight. E em alguns ambientes foi usado uma máquina haze para criar uma densidade atmosférica.



O apartamento do Davi foi construído em estúdio, nele usei um pano brim branco que cobria a área das janelas, rebati uma mistura de HMI e caixa HO (limite orçamentário limitou os HMIs), ataquei com mais umas caixas HO diretas com uma difusão na boca delas e tinha um HMI M18 para alguma incidência mais direta. Assim criei o ambiente externo diurno dentro do estúdio e a principal motivação de luz, precisando de poucos ajustes dentro. Esse foi o maior set desse projeto. Meu chefe de elétrica foi o Fernando Café e meu chefe de maquinaria foi o Bodinho. Agradeço a parceria para concretizar essa visão!



O longa é narrado desde o ponto de vista do Davi. Qual foi o trabalho da fotografia para diferenciar o presente, memórias, alucinações, etc.?

Tivemos uma separação por lentes entre o passado e o presente, usando anamórficas para o primeiro (Kowa) e esféricas para o segundo (Cooke Mini/S4 e Zeiss superspeed). Também buscamos construir esse universo com um pé no fantástico, onde as fronteiras entre o real e o imaginário não ficam tão nítidas. A luz as vezes expressionista, os filtros de difusão, a estetização nas cores, tudo isso colabora para criar esse mundo próprio da cabeça do Davi.



Como aconteceu o processo de escolha das locações e em quais locais o filme foi realizado?

Quando eu entrei no projeto a Anhembi Morumbi já estava como parceira. Rodamos mais da metade do filme lá, inclusive o apartamento do Davi e da Maria foram construídos nos estúdios deles. Dificilmente teríamos conseguido realizar esse filme sem essa ajuda. Os ambientes do Campus Mooca ajudaram a dar vida para o Davi. Buscamos achar locações que tivessem uma personalidade própria em sua textura e acredito que fomos bem-sucedidos. A intervenção do Fernando Cacerez nesses ambientes foi imprescindível.

Também tivemos como locações a Trackers para uma cena de uma festa fetichista, uma mansão ocupada na Av. Consolação, onde dois dos personagens principais se conhecem melhor, o parque da Sabesp na Pompéia, a cidade de Paranapiacaba, o centro de SP, entre outros lugares.




Qual foi o diálogo da equipe de fotografia com as equipes de arte e som?

Desde o começo tivemos uma troca muito dinâmica e criativa entre a foto, a arte (Fernando Cacerez) e a direção (Diego Freitas). Quando entrei na pré já estava bem encaminhado o conceito de arte e inclusive o desenho do cenário que seria o apartamento de Davi. Fizemos alguns ajustes para permitir certos enquadramentos e movimentos de câmera, mas o projeto já estava bem legal. O Fernando também queria que a arte não entregasse uma ideia de época determinada, queria misturar referências para levar o filme para um lugar mais atemporal. Isso também parte do pensamento que o Diego foi levando para cada departamento e permitiu criar esse projeto que tem um universo tão próprio, assim com o que habita a cabeça do protagonista. Lembro como fomos amadurecendo e debatendo o próprio roteiro durante a decupagem e isso enriqueceu muito o filme! São essas trocas que dão tesão em fazer cinema e criar esses nossos pequenos mundos. Diego também acompanhou de perto a trilha sonora construída majoritariamente por sintetizadores por Paulo Beto e o desenho de som feito pelo Pedro Lima. Clique aqui para conhecer um pouco mais sobre a construção desse universo.



Tanto o diretor quanto o ator principal são estreantes em longa-metragem. Como foi trabalhar com eles?

Confesso que no começo estava com um frio na barriga! Tanto pelo limite orçamentário considerável que tínhamos para realizar as referências que buscávamos, tendo um diretor estreante e jovem, quanto um filme totalmente focado no protagonista, com exigências altíssimas para a atuação. Em ambos os campos fui felizmente surpreendido! Dois talentos e encontros que levarei para a vida. O Diego desde o começo sempre mostrou-se seguro de suas decisões, mas ao mesmo tempo aberto para construirmos juntos, o que tornou todo o processo mais ágil e criativo. E o Nicolas Prattes, sempre focado no personagem, conseguia transitar habilmente entre suas facetas e ao mesmo tempo estar atento à mecânica. Impecável! Conseguimos dançar juntos muito bem!!



Poderia nos contar sobre o workflow de pós e sua participação nele?

Tivemos como grande parceira a Clandestino para a finalização de imagem e o colorista foi o Alexandre Cristofaro. Já trabalhamos juntos em inúmeros projetos e isso facilitou bastante a comunicação. Como fomos pré-selecionados para o Festival de Sundance no Encontros com o Cinema Brasileiro ano passado, tivemos que correr para fazer uma primeira passagem de cor em um primeiro corte feito em um mês do fim das filmagens. Foi uma loucura! Nessa primeira cor acabamos dosando bem os níveis de saturação e contraste, e isso foi ótimo para nos darmos conta de que não queríamos ficar nesse meio do caminho. O filme acabou não sendo selecionado, e depois conseguimos passar pelas etapas de finalização com mais calma. Quando finalmente sentamos para fazer a cor, buscamos ser esse filme fantástico, de cores saturadas e tons sombrios ambicionados desde a pré. O Alê foi um parceiro essencial para realizar essa visão, levando seu rigor para cada plano. Eu, Diego e ele passamos incontáveis tardes mexendo na cor, tentando achar o tom certo para cada cena, criando máscaras e acentuando separações de cor. Conseguir ter esse cuidado com o filme faz toda a diferença!

Algo mais que gostaria de acrescentar?

Comentei só alguns dos tantos nomes que foram essenciais para realizar esse projeto, desde quem esteve na produção como quem batalha diariamente para que o cinema nacional continue sendo feito, assistido e refletido. E isso não pode acabar! Quero agradecer a todxs envolvidxs!!! Que a cultura continue a crescer, trazendo diversidades de visões e sabores!



Ficha Técnica:

Direção: Diego Freitas Roteiro: Diego Freitas e Gustavo Rosseb Produção: Amadeu Alban, Diego Freitas, Elisa Tolomelli, Luciano Reck e Marcio Yatsuda Fotografia: Kaue Zilli Trilha Sonora: Paulo Beto Estúdio: Parakino Filmes Montadores: Diego Freitas e Luiz Felipe Moreira Paulin Distribuidora: Elo Company Fotos: Carina Barros, Gabriel Silveira e Leticia Modena Elenco: André Hendges, Bianca Müller, Cris Vianna, Eucir de Souza, Giselle Prattes, Giulia Ouro, Guilherme Rodio, Isadora Magalhães, João Côrtes, Neusa Maria Faro, Nicolas Prattes, Tuna Dwek, Tutty Mendes, Vinicius Bicudo

© 2016 Kauê Zilli. All rights reserved.   

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